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Wander Wildner: canção e convicção Imprimir E-mail
quarta, 16 dezembro 2009
ImageWander Wildner fez show nesta terça-feira, 15, em Porto Alegre no Zelig Bar. Cantou, entoou e falou suas canções punk-bregas para um público pequeno. Entre uma e outra canção, convida Arthur de Faria e Jimi Joe para uma participação impagável e diz coisas, de um lugar da canção popular, que merecem destaque pelo improvável da cena: "yo hablo el español", "yo soy latinoamericano", "me gusta el Machu Picchu", entre outras.

Inventor do próprio gênero no qual compõe, produz e performatiza, Wander é um artista sensacional por uma razão muito simples: ele acredita no violão que prepara acordes elementares para os desenhos melódicos que tem à voz, nos efeitos de guitarra que ficam expostos sem maiores elaborações, nas letras óbvias - mas às vezes surpreendentes - que adquirem contornos por demais interessantes à medida que são ditas em um ciclo de recorrência que flerta com temas, ideias e sentidos de uma mesma zona - meio punk e meio brega, que surgem uma e outra numa combinação pura, essencial.

É imponderável imaginar um intérprete que não acredite naquilo que canta. Um Chico Buarque que afirmasse estar à toa na vida, mas sem convicção, estaria fadado ao insucesso. Uma Elis que afirmasse querer uma casa no campo, mas com pouco interesse, teria voltado a Porto Alegre para, quem sabe, nunca ter gravado Gil, Belchior ou Jobim.

Parece-me às vezes que existe uma espécie de crise da crença cancional, dada pela repetição das formas, pela possibilidade dos retoques de estúdio, pela sensação do déjà-vu semântico e da reprodução massiva das mesmas sonoridades e roteiros de produção tanto de estúdio quanto de apresentação ao público.

Wander tensiona e tenciona esta escala da convicção da fala no canto em um grau máximo. Não porque tenha letras incríveis, ou acordes dissonantes, ou melodias insuperáveis. Ele tem somente convicção. Com esta convicção, é possível desafiar o ouvinte, provocar um público interessado e interessante, dizer que lhe tem amor, sustentando também a recíproca. A prova maior dessa apropriação em grau máximo, ontem, foi dada pela interpretação da canção Amigo punk, cantada em parte, falada em outro momento quando da retomada da letra, creditada no roteiro que faz o personagem, da Oswaldo Aranha ao Parque Farroupilha.

M., 16 de dezembro de 2009
Overmundo

 
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